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Agronegócio

Reconexão do agronegócio

Um panorama das tendências globais para o setor. Ouça o podcast!

16 de outubro de 2020

Não é novidade que o agronegócio foi um dos poucos setores menos impactados economicamente pela pandemia do novo coronavírus. Mas esse cenário da Covid-19, com pessoas passando mais tempo em casa, acelerou tendências relevantes para o setor.

O consumidor vem mudando sua relação com o alimento e buscando cada vez mais a conexão com a saúde. Esse novo comportamento demanda mudanças na forma como o produtor se alinha aos clientes, passando pelo modo como ele produz, embala e distribui esse alimento, por exemplo. Implica também um modo de produção cada vez mais conectado com soluções ambientalmente responsáveis.

As soluções digitais contribuem para esse processo, não só ampliando o leque de ofertas de produtos, mas também possibilitando o desenvolvimento de soluções mais assertivas para a produção.

Não à toa, os investimentos em tecnologia no campo devem aumentar, trazendo oportunidades de trabalho para novos perfis profissionais e também para setores como infraestrutura e telecomunicações, por exemplo.

Esses são alguns dos pontos debatidos entre Giovana Araújo, sócia-líder de Agronegócio da KPMG no Brasil, e Ian Proudfoot, líder global do setor na KPMG.

Alocado na Nova Zelândia, Ian foi o primeiro convidado da Giovana para uma série sobre as tendências do setor. A seguir, confira  esse bate-papo, em inglês, realizado online. Você pode acompanhar também a tradução do podcast logo na sequência do áudio:
 

 

Confira a tradução do podcast com Giovana Araújo e Ian Proudfoot:

Giovana - Olá a todos, meu nome é Giovana Araujo, sou Sector Leader de Agribusiness da KPMG no Brasil, é um prazer poder iniciar essa conversa com todos vocês hoje nesse podcast, que será o primeiro de uma série de podcasts sobre tópicos estratégicos relacionados ao setor de Agribusiness. 

Para este primeiro podcast nós chamamos um convidado muito especial, Ian Proudfoot que é o Líder Global de Agribusiness da KPMG. Olá Ian, como vai você?

Ian - Estou ótimo, como vai você? Bom dia!

Giovana - Bom dia. Obrigado por aceitar nosso convite, é um prazer ter você conosco hoje. 

Ian - Sem problemas, é um prazer poder falar a respeito, são assuntos muito importantes. 

Giovana - Obrigado. No podcast de hoje vamos discutir algumas tendências que estão definindo o setor de Agribusiness globalmente. 

Acredito que podemos começar explorando as implicações globais deste choque da COVID-19 no setor de Agribusiness. Então, no seu ponto de vista Ian, quais tendências vão sofrer uma aceleração e quais são as novas tendências que estão surgindo como resultado da pandemia? 

Há alguma mudança fundamental no mercado global de Agribusiness, que as organizações devem considerar em seu planejamento estratégico?

Ian - Esta é uma pergunta muito ampla para começarmos, mas a realidade é que, para mim, quando estou me referindo à COVID-19, é um dos maiores aceleradores. O que está acontecendo é que está intensificando o foco no que precisamos fazer, e acelerando o ritmo com que fazemos as coisas, e ocorre o mesmo com as coisas que temos que parar de fazer, já que estamos parando mais rápido do que o faríamos. 

Então o que tenho observado no sistema alimentar global, vimos essa mudança e reconexão das pessoas com a alimentação. Você sabe, acho que quando olhamos para boa parte do mundo, todos estão ficando em casa por bastante tempo nos últimos seis meses. E ao estar em casa, nós temos algumas coisas: temos nossas famílias, em muitos casos temos nossos filhos, o que nos pôs à prova em como gerenciamos nosso trabalho e nossas vidas. Nós temos nossas casas e temos nossos alimentos. E como consequência, o alimento ficou muito mais importante para nós. A maneira como as pessoas comem por todo o mundo voltou a ser como era antes, nós estamos preparando alimentos, cozinhando muito em casa. Estamos pensando muito mais nas implicações que os alimentos têm em nossa saúde. 

Também estamos voltando à comida afetiva, aos alimentos de quando éramos crianças, porque isso nos dá uma sensação de segurança. É algo familiar em um mundo em que todo o resto parece ser muito incerto. Então todas estas tendências estão em curso e para uma companhia que está produzindo ou cultivando alimentos, o ponto é como você conecta sua produção aos clientes. O cliente está no centro do seu mundo, então como você se certifica que você está de fato oferecendo seus produtos na forma como as pessoas precisam? Estão embalados corretamente? Está embalado de forma que as pessoas se sintam seguras ao consumí-lo? Você construiu a narrativa da saúde? Você fez um acompanhamento sobre como seu alimento contribui com a imunidade das pessoas? Todos esses fatores se tornam muito importantes, e do meu ponto de vista, acredito que esta é a grande mudança, esta reconexão das pessoas com os alimentos. 

E acredito que se você conseguir contar a sua história de forma melhor, ou contar sua história de uma forma que tenha apelo com a mentalidade dos consumidores de hoje, então isso é muito importante. Mas isso também significa que a forma como você vendeu seu produto ano passado, o tamanho da porção, o preço da porção, a história que você contou sobre ele talvez sejam bem diferentes hoje do que eram seis meses atrás. Então existe uma necessidade real de estar se conectando com o consumidor e ela está mudando muito rapidamente. 

Giovana Isso é muito interessante. E em seu ponto de vista, qual é o papel da digitalização nesse contexto? 

Ian -  É fascinante, eu vi algumas estatísticas semana passada, sugerindo que nos EUA em particular, foi observado em três meses o equivalente a 10 anos de crescimento em digital e plataformas de e-commerce. Então se você olhar para os últimos 10 anos, o que foi efetivamente feito, passaram-se 10 anos em três meses. 

Nós atingimos um ponto de inflexão em termos de digitalização. Então do ponto de vista do consumidor, o que temos no sistema alimentar é uma “avenida principal” global e virtual, ou na verdade, uma cidade global e virtual, com lugares do mundo todo em que você pode procurar e comprar alimentos. E isso significa toda uma nova gama de novos concorrentes. 

Mas isso também significa que se você é um produtor com uma história, você pode contar essa história e o seu mercado é repentinamente global. Você não está mais limitado como estava quando precisava encontrar uma cadeia de suprimentos e lojas físicas para levar seu produto ao consumidor. 

Então isso cria uma oportunidade completamente nova e eu acho bastante animador que agricultores tenham a oportunidade de se conectar diretamente com as pessoas que consomem seus produtos. 

Se você considera a tendência de digitalização e pensa sobre isso, o que mais isso significa? Bom, acho que existem duas grandes implicações. Uma é o reconhecimento de que as áreas rurais tem esse déficit digital fundamental, eles tão tem equidade digital com as áreas urbanas. E acho que vamos ver mais investimentos em infraestrutura e conectividade digital nas áreas rurais, e isso é bom, porque esta conectividade digital vai permitir aos agronegócios a se moverem bem rapidamente na curva de digitalização. Temos sido um setor lento em se digitalizar até agora, porque não tem sido algo fácil de se fazer. 

Então eu penso, quando vejo muitas novas tecnologias, que nos permitem produzir mais usando menos recursos naturais, mas também significa que poderemos anexar aos nossos produtos os sinais digitais que serão muito importantes para nossos consumidores, para dar a eles a história sobre proveniência. Então isso fornece a plataforma para construir uma blockchain ou o que você quiser como conexão digital com o consumidor. 

Então acredito que o que vamos ver é um sistema alimentar muito mais fundamentado no digital. Não estou dizendo que vamos comer bits e bytes (risos), mas o digital vai estar presente e vai nos dizer o que estamos comendo e nos dar a confiança de que o que estamos comendo é seguro. 

Giovana - Ok, ótimo! Falando de conectividade, temos essa lacuna de conectividade de alta-velocidade e isso é muito verdadeiro para o Brasil hoje em dia. 

Ian - Sim. 

Giovana - Mas ainda sobre este tópico, a digitalização, o que me chama mais a atenção é o que você compartilhou, um relatório recente chamado Agribusiness 2020. Você disse que conectividade de alta-velocidade, que permite o uso efetivo de novas ferramentas, continua sendo um gargalo para liberar todo o potencial da digitalização. Contudo o grande problema que precisa ser solucionado é a interoperabilidade de dados. Você poderia por favor falar mais sobre isso?

Ian - Uma das coisas que notei viajando ao redor do mundo sobre dados no setor primário, no setor de alimentação e agricultura é que as pessoas gostam de esconder os dados, mantê-los somente para si. Eles se agarram aos dados, eles acreditam em seu valor, e acham que conseguem extrair esse valor usando-os de forma isolada. 

Mas a realidade é que se você pensar em uma empresa agrícola, eles produzem uma ampla gama de dados, sejam essas informações sobre animais, ou informações sobre a aplicação de fertilizantes, sejam dados pluviométricos, e há toda uma variedade de informações que são geradas em uma fazenda. Mas o problema do momento é que todas elas estão em lugares diferentes e nenhuma delas está sendo associada. 

O que acredito que as evidências estejam começando a nos mostrar são exemplos muito bons vindos de países como a Holanda, em que estão criando operadores de dados, em que pessoas estão se reunindo para compartilhar seus dados. Se você une esses dados, o valor que todos recebem dos dados é significantemente maior. Se você pode criar uma plataforma, uma comunidade digital para compartilhar informação, é aí que vamos conseguir os verdadeiros insights, as gemas que vão nos permitir criar valor significantemente maior, melhorar seus rendimentos, melhorar seu desempenho ambiental, abordar todos esses problemas-chave que estão desafiando o setor por todo o mundo. 

Mas isso pede uma verdadeira mudança de mentalidade. Se você mantiver o valor dos dados para si mesmo, talvez um mais zero resulte em menos um, às vezes. Mas se você compartilhar esses dados, um mais um mais um pode resultar em 12. E esta é a beleza na combinação dados. Os verdadeiros insights vêm de conjuntos de dados combinados. 

Então acredito que a necessidade de fomentar a operabilidade de dados, é algo bom, como visto através de muitos países. E sei que alguns países estão fazendo isso muito bem. E em alguns ainda temos um bloqueio que precisa ser quebrado. Daqui onde estou falando, Nova Zelândia, temos um grande bloqueio que temos que quebrar em se tratando de compartilhamento de dados. 

Giovana - Interessante. Começamos a ver aqui no Brasil algumas cooperativas se movimentando para criar plataformas digitais. Elas estão começando criar estas plataformas e estamos otimistas de que este cenário vai começar a mudar em breve no Brasil. Mas…

Ian - É interessante que, se você pensa no setor primário, o setor de alimentos e agricultura  é uma indústria historicamente muito colaborativa. Se você pensar em laticínios, você precisava trabalhar em conjunto com outros produtores para fazer com que o setor desse certo. Seja as pequenas cooperativas que vemos na Índia ou África, seja as grandes cooperativas que vemos na França, Nova Zelândia, Austrália ou EUA. Mas historicamente, os produtores precisam compartilhar para poderem agregar valor aos seus negócios. Mas com relação a dados não conseguimos atravessar essa etapa ainda, e espero que consigamos isso rapidamente, porque é nossa próxima fronteira. 

Giovana - Sim, ótimo. E outro sinal da digitalização que tem sido um desafio no setor de Agribusiness está relacionado às pessoas. Há desafios crescentes em educar e reter uma força de trabalho com capacitação para desempenhar neste novo ambiente digital. 

Ian - Sim. 

Giovana - Me parece que há profundas lacunas de competências entre os perfis dos trabalhadores atuais e os futuros. Em seu ponto de vista, qual é o perfil deste trabalhador do futuro no setor de Agribusiness?

Ian - Acho que é uma pessoa um tanto diferente do que tem sido historicamente, mas existem algumas coisas que precisamos abordar. Mas a beleza da alimentação estar no centro do pensamento das pessoas no momento significa que um dos desafios do setor para atrair talentos é esta percepção de que isso acontece no campo, não na cidade. Não é novo ou sexy. Não é o setor em que as pessoas querem atuar. Então acredito que no mundo todo este tem sido um verdadeiro desafio, atrair o número de talentos que a indústria precisa. Muitas das pessoas que entram na agricultura o fazem porque têm uma forte ligação familiar com esta atividade. É parte de quem eles são, do seu DNA. 

Mas precisamos de uma base e uma porta de entrada mais amplas para atrair talentos para o setor. Então a indústria em si, em todo o mundo, está encarando um grande desafio. É uma indústria em que há a forte percepção de salários baixos, leis sobre escravidão moderna estão surgindo pelo mundo em parte por causa do setor de agricultura, porque temos uma reputação de não tratar as pessoas apropriadamente. 

Então as profissões do setor não têm sido aquelas de que as pessoas querem ser parte. Então o que acho que a indústria precisa conseguir é demonstrar que há oportunidades de carreira de longo prazo. Essas oportunidades de carreira estão ficando cada vez mais diversas. Precisamos de pessoas com habilidades digitais, que tenham competência para combinar biologia e ciências digitais e de dados, para fazer as coisas acontecerem. 

Precisamos ter a habilidade de ter pessoas com a visão de como conectar produtores com o mercado. Precisamos de produtores que consigam conduzir negócios complexos em que você equilibra ciência, habilidades em gestão de pessoas, e toda uma gama de outros fatores, assim como habilidades bem embasadas em finanças. 

Então, para mim, eu fico frustrado quando eu converso com produtores ao redor do mundo e eles dizem: “Eu sou apenas um produtor”. O que realmente precisamos é que as pessoas digam: “Eu sou um Agroempreendedor, eu estou tocando um negócio complexo, estou aliando ciência, economia e gestão de pessoas para fazer a coisa mais honrosa do mundo, que é alimentar as pessoas”. 

E como consequência, se conseguirmos reposicionar as profissões do setor para algo que seja realmente ambicioso. Acredito que isso vai criar oportunidades para pessoas que querem uma carreira que tenha impacto, propósito. Você sabe, cultivar e produzir alimentos é uma das coisas com mais impacto e propósito que você pode fazer. Então esta deveria ser uma carreira realmente compatível e atraente para Millenials e Centennials. Então, acredito que temos a combinação certa de fatores, só temos que vendê-la da maneira apropriada. 

Giovana - Isso é muito interessante. E ao ouvir você, Ian, penso não apenas no aspecto da digitalização, mas também ouvindo seu comentário sobre os desafios relacionados às pessoas, o sentimento que temos é que o setor de Agribusiness está ficando não apenas cada vez mais intensivo capital mas também intensivo em conhecimento. Você concorda com isso? Você vê isso como um fator de que impulsiona a consolidação do mercado do setor, local e globalmente?

Ian - Eu acho que a indústria está definitivamente  se tornando mais intensa no uso de conhecimento, não há dúvidas quanto a isso. Em termos gerais, o setor costumava ser uma indústria relacionada a estilo de vida. Você era produtor ou porque precisava se alimentar, porque seus pais ou avós eram produtores, ou você era produtor porque queria, porque apreciava a vida no campo, trabalhar com animais, você gostava de alguma coisa neste trabalho.

Mas a verdade é que isso evoluiu dramaticamente nos últimos 25 ou 30 anos, eu acho, e se você olhar sob um ponto de vista global agora, é muito mais sobre uma indústria profissionalizada, ser um produtor é seguir carreira profissional, e há uma série de competências que você precisa para ser um bom produtor. 

E por todo o mundo, os países estão trabalhando em quais são essas competências, e fornecendo serviços de extensão para que as pessoas aprendam essas competências e façam seu trabalho de forma efetiva. 

Da perspectiva do capital, esta é uma pergunta muito interessante, porque temos sido uma indústria com capital extremamente restrito. Não tem sido, quando você olha globalmente, a maioria das grandes indústrias agrícolas - e vi que é um pouco diferente no Brasil, em que algumas de suas maiores indústrias agrícolas estão no mercado de ações - em muitos países, as maiores empresas são familiares, ou pertencem a cooperativas. Elas não tiveram a habilidade de ir ao mercado e levantar capital. Os principais fundos e gestores não gostaram da história da agricultura e alimentos por causa da volatilidade, sabe? Quando você sabe que em um a cada sete anos você terá muita chuva ou uma enchente, vai ser um ano ruim. 

Não é o tipo de investimento para crescimento que eles querem em seus portfólios. Então eles se afastaram. E tem sido difícil de atrair o capital para crescimento nesta indústria. Mas eu acho que agora temos uma história mais ampla em torno da oportunidade na agricultura e no setor de agro e sabemos que a demanda está em vias de crescimento. O fato de que temos essa narrativa do plant-based começando a receber atenção e as pessoas estão se tornando mais preocupadas com a saúde e com o que estão comendo. As pessoas estão preocupadas com o impacto que elas têm no ambiente. As questões mais urgentes estão começando a passar por uma transição e se reequilibrar.  

Toda essa história está começando a atrair novos investidores, e acredito que neste ponto, eu começo a ver uma indústria que está mais atraente aos provedores de capital do que em qualquer outro momento nos últimos 50 ou 100 anos. Então enquanto nós temos um problema de capital, acho que, o que estamos descobrindo ao conversar com nossos colegas por todo o mundo, é que se alguém tem uma boa proposta, tem muito dinheiro para ser direcionado para boas propostas. Então eu acredito que o desafio é mais sobre conhecimento do que sobre capital neste momento. 

Giovana - Interessante. De fato, hoje em dia no Brasil estamos observando estas empresas de médio-porte do setor de Agribusiness se voltando ao mercado de capitais, em processo de IPO. É uma grande tendência…

Ian - Sim. 

Giovana - … hoje em dia no Brasil. Então provavelmente com taxas de juros mais baixas, maior apetite a riscos e é claro com a resiliência do setor de Agribusiness, o setor provou isso durante a atual crise e em crises passadas. Então isso é definitivamente uma tendência hoje em dia no Brasil. 

Ian - Sim. E eu acho que isso é ótimo, porque quanto mais um país, quanto mais um setor estiver disponível para que as pessoas invistam nele. Isso eleva o perfil e as pessoas começam a entender melhor os riscos e esforços. E isso é fundamentalmente, você sabe, quando você está investindo em alimentos, está investindo na única coisa de que a sociedade humana não pode abrir mão. É um investimento sensível e de prazo muito longo até onde consigo ver (risos). 

Giovana - Aham (risos). Ok. E neste contexto do chamado “novo normal”, o que você vê como crítico para que um país se posicione como um produtor de alimentos confiável? Quais KPI’s ambientais, sociais e de governança seriam críticos para as organizações deste setor?

Ian - Bem, eu acho que quando olhamos para o “novo normal”, algumas coisas se destacam para mim. Uma delas é que nós saímos desse período de globalização intensa em direção a algo mais voltado a economias internas nacionais. E poderíamos dizer que isso tem sido impulsionado por fatores como Donald Trump nos EUA e o movimento de Brexit no Reino Unido. Os países estão se colocando em primeiro lugar. Eu não diria que isso é um isolacionismo, mas é ser mais fechado à globalização. 

Então para países como o Brasil que é um exportador de alimentos, e aqui na Nova Zelândia também, nós nos apoiamos no livre-mercado para podermos fornecer nossos produtos para o mundo. E portanto, acredito que para nós, como países exportadores, é muito importante pensar em como se certificar que suas exportações não são boas apenas para o país exportador, mas também para os países que estão importando o produto. Então é sobre pensar em o que é ganha-ganha para os países com quem fazemos comércio. Como nós podemos beneficiar não somente a nós mesmos mas também a comunidade mais ampla que está recebendo os produtos. E isso exige uma nova mentalidade sobre como nós fazemos comércio e como pensamos o comércio. 

E o que eu acho que isso significa, quando olhamos isso sob uma perspectiva ambiental, eu acho que é muito importante, se vamos ser vistos como parceiros exportadores de alimentos de valor, então você está pensando no meio ambiente. Enquanto isso, no momento é bastante difícil tomar decisões sobre fazer investimentos como mudanças climáticas, melhoria da água, proteger a biodiversidade, no seu caso em particular, proteger florestas. Nós vamos fazer esses investimentos. Mesmo que não consigamos fazer grandes investimentos que gostaríamos de fazer, ainda vamos fazer pequenos investimentos, então estamos caminhando em direção à melhoria do meio ambiente. 

E não estamos mudando a nossa ambição. Então eu acho que, quem já está se articulando pela ambição de se tornar uma empresa alimentícia sustentável, vai continuar a ter esta ambição enquanto nos movemos para este período de “novo normal”. É questão de reconhecer que o ritmo em que vamos em direção a esta ambição pode ser ligeiramente diferente. 

De uma perspectiva de pessoas, temos que estar prontos para investir, como já falamos, em nossas pessoas. E nos certificarmos que somos bons empregados, seguimos todas as regras, e nos certificarmos que estamos nos esforçando para aproveitar a habilidade de contar a história de que somos benéficos para as comunidades em que trabalhamos. 

Eu acho, você sabe, que métricas são também vistas como relacionadas ao desenvolvimento das ciências. Os investimentos direcionados ao desenvolvimento de comunidades rurais de que nossas empresas são frequentemente parte. Todas essas coisas serão métricas. Acredito que no fim, as métricas são a coisa mais importante para focarmos. São o que é importante para a comunidade, porque elas fornecem a licença para você operar, e as métricas são importantes para seus consumidores porque eles são as pessoas que vão comprar os produtos. Então eu acho importante que você esteja próximo da comunidade e dos consumidores, entender o que é importante para eles e se certificar que você está incluindo isso em seus planos, para que você possa continuar fazendo um comércio internacional positivo para todos. 

Giovana - Ok. Você mencionou essa tendência em direção a um mundo menos globalizado, e com relação a isso, produtores brasileiros têm muitas preocupações. Então em primeiro lugar, o que vai acontecer com entidades multilaterais como a OMC, por exemplo, que tem sido um mediador importante em algumas batalhas comerciais do Brasil, como no caso do açúcar. E outra preocupação é a relação entre países, entre o Brasil e outros países como a China, que é fundamental para nós. Qual é a sua opinião sobre isso?

Ian - Bem, a atuação da OMC está muito complexa no momento. Venho de um país que é uma nação de pequeno comércio. Queremos desesperadamente que a OMC continue a funcionar e continue exercendo, você sabe, fazendo as regras do sistema de comércio global. Mas isso não está nada bem no momento, não vamos conseguir funcionar de forma efetiva por causa destes desafios que apareceram. O processo de atratividade ou de desafios. Eu acredito que é melhor nos movermos de um sistema amplo e multilateral para um arranjo bilateral. Então, exemplos como o Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica, o AAPPT. Ou o que vocês estão fazendo, na perspectiva do Mercosul, com acordos de livre-comércio entre vocês por exemplo. 

Mas estes acordos mais amplos parecem ser o futuro. Seriam eles tão efetivos quanto sistemas baseados em regras claras? Bem, acho que ainda estamos dependendo de, você sabe, está claro o que é e o que não é justo. E por hora, estas definições não estão claras. Eu estive dizendo repetidamente nos últimos quatro anos que o maior player do mercado rasgou o livro de regras, e decidiu fazer as coisas do seu jeito. Isso deixou as coisas difíceis para o comércio de muitas nações. Você sabe, essa habilidade, e posso ver que o Brasil está encarando os mesmos desafios que nós aqui na Nova Zelândia e Austrália. Estamos tentando fazer negócio com os EUA e China, e estes dois países estão efetivamente... e estes países estão dedicados ao que está se tornando uma  barreira comercial grande e desafiadora, e isso tem tido mudanças há poucos dias, quando os EUA impuseram novas sanções à China. 

Então como você trata a linha tênue entre os dois. Isso demanda muito bom-senso político. E como você pode ver, você sabe, quando você não define esse limite corretamente, a Austrália é provavelmente um bom exemplo disso no momento. Eles acabaram seguindo um caminho problemático, desafiando a China sobre a fonte do Coronavírus. Restrições foram colocadas em sua carne bovina, em sua cevada, em seu vinho. E você pode ver, você sabe, a política e o comércio se intersectam muito rapidamente e criam problemas. 

Então, da maneira como vejo, e o que temos falado com nossos profissionais de comércio é que os chineses são clientes incrivelmente importantes, e você deve respeitar as perspectivas deles sobre o mundo assim como as suas próprias e se certificar que quando você se expressa, seja de uma maneira politicamente equilibrada. E são necessários políticos muito inteligentes para se certificar que as relações comerciais não sejam restringidas, ou chegar a um ponto em que elas começam a se tornar um problema, como visto na Austrália recentemente. 

É um mercado muito desafiador, e a chave para uma empresa que está nesse mercado no momento é ser flexível. A necessidade de ter respostas ágeis é muito importante. Mas da mesma forma, se você está investindo e construindo relações no mercado em que está vendendo, você tem menor probabilidade de ser excluído destes mercados, porque seus produtos são importantes pra eles e a relação vai continuar. E é aí em que o transacional tem sido realmente importante. 

Giovana - Isso é ótimo. Estamos chegando ao fim do nosso podcast, Ian. Muito obrigado pelos seus insights que foram de grande ajuda. Espero que todos vocês tenham gostado desta conversa como eu gostei. Muito obrigado por sua atenção e espero vê-los em breve em nosso próximo podcast. 

Ian - Obrigado por me receber!

 

 

 

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