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Edição 43

Lição de casa para o Brasil - Edição 43

Materia 4

1 de abril de 2018

 
Este ditado, apesar de simples, sintetiza bem o porquê de o Brasil figurar na 73ª posição – entre 181 países – do pilar de infraestrutura do Relatório Growth Promise Indicators (GPI), publicado em janeiro deste ano pela KPMG. O estudo – no qual o Brasil ocupa a 89a posição do ranking geral – demonstra que, enquanto os países em desenvolvimento têm concentrado seus (poucos) esforços na construção de infraestrutura física (construção civil), os países desenvolvidos investem igualmente em tecnologia.
A justificativa parece razoável: se há muita infraestrutura básica a ser feita, como pensar em investimentos mais sofisticados? No Brasil, por exemplo, um relatório recente da Agência Nacional de Águas (ANA) aponta que 41% da população não dispõem de coleta de esgoto. E o senso comum diz que, primeiro, é necessário fazer o básico para só depois avançar.
Acontece que o senso comum está errado. Se ficarmos eternamente presos a essa visão limitadora, estaremos condenados a viver, para sempre, no passado.
 

Sem planejar, não sabemos qual será o vetor econômico regional e, por consequência, a melhor infraestrutura a ser desenvolvida

 
 

Acontece que o senso comum está errado. Se ficarmos eternamente presos a essa visão limitadora, estaremos condenados a viver, para sempre, no passado.

Em primeiro lugar, é fundamental compreendermos que tecnologia não é “luxo”, não é supérflua; ao contrário, ela pode trazer soluções mais simples e rápidas para muitos dos problemas que há tanto tempo nos perseguem.

A infraestrutura física tal qual a conhecemos, com muita escavação, concreto e aço, tavez já não seja mais a ideal para as necessidades da vida moderna – ou, pelo menos, não de maneira exclusiva. Por exemplo: os países mais avançados discutem como os veículos autônomos serão regulados, e já trabalham com a visão de que áreas significativas nos centros urbanos serão liberadas porque deixarão de servir como estacionamento (veículos autônomos poderão dirigir-se, ao final do dia, a vagas situadas em regiões mais remotas); já o Brasil encara como “grande inovação” a concessão de edifícios-garagem e estacionamentos subterrâneos, chegando mesmo a firmar, em alguns municípios, contratos de até 30 anos para a exploração desses espaços. É como se planejássemos o futuro sempre de olho no passado...

Mesmo dentro da construção pesada há potencial para inovação. Os relatórios Infrastructure productivity: Time to unleash the technology revolution e Global Construction Survey, recentemente publicados pela KPMG, demonstram que o setor de construção civil pode beneficiar-se de inovações como o Building Information Model (BIM), que permite, dentre outras inovações, o monitoramento de obras por drones. A produtividade da construção civil brasileira está entre as mais baixas do mundo, e a aplicação de novas tecnologias representaria redução dos custos de obra e, por consequência, dos custos cobrados dos usuários finais daquela infraestrutura.

A origem do problema, voltando à frase que abriu este artigo, é o retrovisor: estamos sempre correndo atrás do prejuízo, e por isso não sobra tempo para pensar no futuro. Que Brasil teremos em 2050? Ninguém sabe. Afinal, isso não se discute... Enquanto outras nações – não por coincidência, as mais desenvolvidas – sabem muito bem quem elas pretendem ser no futuro (uma decisão baseada não em aspirações vazias, mas em uma análise profunda das vantagens competitivas que aquele país já possui, tais como localização, clima, recursos naturais etc.), o Brasil não tem um plano estratégico de longo prazo.

Sem este plano, como saberemos quais as melhores estradas para o País? Aliás, como saberemos que uma estrada é o melhor modal para aquela região – e não ferrovias, hidrovias, aeroportos? Sem planejar, não sabemos qual será o vetor econômico regional e, por consequência, a melhor infraestrutura a ser desenvolvida. E, sem inteligência embarcada no planejamento, estaremos condenados a assinar contratos de 30 anos baseados em uma tecnologia de dez anos atrás.

Podemos explicar o pensamento do Brasil de maneira geométrica. Imaginamos sempre que estamos em uma linha reta, na qual o nosso país está atrás de outros, tais como Suíça, Finlândia e Nova Zelândia (os três primeiros colocados no ranking de infraestrutura do GPI). Pensando dessa forma, faz sentido tentarmos replicar o que esses países fizeram no passado, buscando reduzir o atraso para alcançá-los.

O problema é que não estamos em uma linha reta. Vamos mudar um pouco essa imagem e enxergar o futuro não como um ponto adiante nesta “linha”, mas como um ponto deslocado que formaria um triângulo. Nessa hipótese, o “futuro” estaria tão próximo de nós quanto da Suíça... mas nós só perceberíamos isso quando chegássemos ao ponto errado. Isso pode ser exemplificado por empresas que eram líderes de seus setores e, em poucos anos, desapareceram por completo, substituídas por companhias mais arrojadas e inovadoras, que enxergaram o “terceiro ponto” que formava um plano, “libertando-se” da reta onde estavam. Parando para planejar, é possível imaginar para onde precisamos ir, com base em onde queremos chegar.

Não é à toa que a KPMG publica o relatório do Growth Promise Indicators: mais importante do que uma fotografia do presente é a expectativa de futuro, a promessa do desenvolvimento econômico que aumentará a renda per capita e, por consequência, a qualidade de vida da população

O Brasil precisa de uma visão de longo prazo. Isso não só na esfera federal: é necessário este mesmo entendimento nas esferas estadual e municipal. Neste ano de eleições, vale a reflexão: sem planejamento técnico, independente e de longo prazo, dificilmente chegaremos onde nosso país merece estar: entre aqueles mais ricos, prósperos e produtivos do planeta.

 

Tecnologia não é ‘luxo’, não é 'luxo', não é supérflua; ela pode trazer soluções simples e rápidas para os problemas

 
 

Publicado pela consultoria KPMG, o Relatório Growth Promise Indicators (GPI) é um estudo sobre a capacidade de crescimento sustentável de 181 países. Ele considera os seguintes fatores: estabilidade macroeconômica; abertura para os negócios; infraestrutura; capital humano; e força das instituições.

Nele, o Brasil aparece na 89ª posição. Pode não parecer tão ruim, por se tratar de uma colocação literalmente “na média”. Mas, quando consideramos que a nossa economia é a 10ª maior do mundo, soa um alerta.

Numa escala de 0 a 10, o Brasil obteve 3,63 pontos em estabilidade macroeconômica, 0,47 em abertura de mercado, 5,68 em desenvolvimento humano, 3,8 em qualidade de infraestrutura e 4,84 em qualidade das instituições. Com isso, ficamos atrás de nossos vizinhos Chile (33º colocado), Uruguai (39º) e Colômbia (86ª posição), e até mesmo de outros países considerados notoriamente menos comprometidos com as premissas do desenvolvimento sustentável do que o Brasil. Dentre eles, podemos citar a Turquia (57ª posição no ranking), Rússia (65º colocado) e Vietnã (64º).

Para melhorarmos nossa posição em rankings futuros, uma coisa é certa: precisamos investir mais e melhor. Eleger as prioridades corretas é a chave para o Brasil deixar de ser uma promessa e tornar-se efetivamente a potência que ele merece ser.

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