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Dupla invisibilidade: o racismo e o capacitismo sobre pessoas negras e com síndrome de Down

Artigo da KPMG reflete sobre preconceito sofrido por esse grupo social.

mulher negra com síndrome de down

21 de março de 2022


O dia 21 de março é uma data importante para a defesa da diversidade, uma vez que representa o Dia Internacional de Combate à Discriminação Racial e o Dia Nacional da Síndrome de Down. Mais que mera celebração, ambas as datas são representações de luta e resistência por parte daquelas pessoas que sofrem com a intolerância e a negligência, que habitualmente resultam em atos de injúria, racismo e capacitismo. Sendo este dia interseccional por si só, vale a reflexão: onde estão as pessoas negras e com síndrome de Down?

Erroneamente, está no imaginário popular que pessoas negras são menos propensas à trissomia do cromossomo 21, conhecida como síndrome de Down. Segundo a Biblioteca Virtual em Saúde, do Ministério da Saúde, no Brasil 1 a cada 700 nascimentos é de uma criança com a síndrome e, no mundo, a taxa é de 1 para 1 mil nascidos. Não há distinção de cor ou raça, é uma variação genética, que pode ocorrer em qualquer família. Sendo a população brasileira formada por 56,2% de pretos e pardos (IBGE, 2019), seria natural vermos mais pessoas negras com síndrome de Down. Então, novamente vem a reflexão: onde estão essas pessoas?

Dois fatores contribuem para a invisibilização dessas pessoas: a ausência de representação midiática e a precarização de políticas públicas para a saúde da população afro-brasileira e com deficiência. O primeiro é uma questão mais fácil de abordar, pois é visível aos olhos quando falamos sobre representação de pessoas com Down nos veículos de comunicação. A imagem da síndrome, no Brasil, é branca – mesmo que não reflita a realidade. Isso se deve, principalmente, ao racismo estrutural, que busca apagar as identidades negras sempre que possível – ato que se nomeia “higienização”. Com uma baixa representação, acabamos acreditando que não existem pessoas negras com Down no Brasil.

O segundo é um pouco mais complexo, uma vez que exige que vejamos o mundo de uma forma menos romantizada. A trissomia do cromossomo 21 causa algumas más-formações no coração, rins e outros órgãos vitais, o que acaba demandando maior cuidado dessas pessoas, principalmente na primeira infância. Embora existam políticas públicas específicas para a pessoa com síndrome de Down, do nascimento à vida adulta, nem todas as pessoas conseguem usufruir delas, sendo a cor e a classe social as principais barreiras. É sabido que no Brasil existe uma dificuldade de acesso da população negra aos serviços de saúde pública, o que se agrava com a pobreza, e, sendo a população de pretos e pardos a maioria entre os mais pobres, podemos construir o cenário que se forma: pessoas negras com síndrome de Down acabam tendo menor acesso às políticas de saúde e, consequentemente, acabam morrendo devido à negligência e às discriminações estruturais e institucionais. A título de comparação, segundo o Dr. Karlo Quadros, do Crisdown/Hran, para o Senado Federal, a expectativa de vida de uma pessoa branca com Down nos Estados Unidos é de 60 anos, enquanto a de uma pessoa negra cai para 35 anos.

Aqui, cabe pontuarmos um tema sensível à comunidade negra: o genocídio da população afro-brasileira. Genocídio é o extermínio de uma população vulnerabilizada, motivado pela eugenia social. Quando vemos estatísticas de homicídios de jovens negros, aumento de feminicídio contra mulheres negras, mortalidade infantil de bebês e crianças negras, entre outras, aplicando o recorte de cor e raça, vemos que pessoas pretas e pardas são a maioria. Trazermos o encontro entre racismo e capacitismo é fundamental para compreendermos, na prática, como as discriminações agem de forma interseccional, ou seja, em conjunto, sobre pessoas com múltiplas identidades.

A interseccionalidade é uma pauta séria e, em breve, teremos mais provocações interseccionais para a compreensão do mundo fora das caixinhas. Na KPMG, através do nosso Comitê de Inclusão, Diversidade e Equidade e da sinergia entre os seus pilares, conseguimos ter essas discussões e, a partir delas, buscar alternativas para, #Together, agirmos com intencionalidade para um mundo melhor. Abrirmos o discurso, rompermos com nossos vieses inconscientes e estarmos à disposição para dialogar permite que, pouco a pouco, tornemos o mundo um lugar mais inclusivo, diverso e equitativo.

Seguem links externos com mais informações sobre o assunto:

INCLUSÃO ACOLHE – Onde estão as pessoas negras com deficiência? – Inclusive – Inclusão e Cidadania

Conselho Nacional de Saúde - Além do capacitismo: Opressões de gênero, raça e classe também impactam vida das pessoas com deficiência, conclui live do CNS (saude.gov.br)

Brasil tem 300 mil pessoas com a síndrome de Down — Portal Institucional do Senado Federal

“Não deixe ninguém para trás”: Dia Internacional da Síndrome de Down 2019 | Biblioteca Virtual em Saúde MS (saude.gov.br)

Fala aê, mestre: a população negra no Brasil e o acesso igualitário no SUS – Fiocruz Brasília

 

Ebony
Pilar de Raça e Etnia da KPMG no Brasil

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