Você não tem permissão para ver essa notícia

Os investimentos em capital de risco estão figurando como novo instrumento padrão de financiamento

Como foi o ano de 2021 para o mundo e para a América Latina?

imagem de um homem de camisa social mexendo em um tablet de onde saem gráficos e números

14 de janeiro de 2022


Por:
Jubran Coelho, sócio-líder de Private Enterprise da KPMG no Brasil e na América do Sul
Carolina Olivera, sócia-diretora de Private Enterprise da KPMG no Brasil e na América do Sul


O capital de risco representa um dos instrumentos de investimento de maior sucesso nos últimos anos em todo o mundo. De acordo com estatísticas coletadas pela PitchBook Data [1], entre 2010 e 2021 esta forma de financiamento, geralmente destinada a alavancar empreendimentos com alto potencial de crescimento e rentabilidade, mas também de alto risco, conseguiu crescer a uma taxa média anual próxima de 30% em dólares, embora com altos e baixos. Nesse período de 11 anos, o acumulado global em capital de risco multiplicou 14 vezes, passando de tímidos US$ 48,6 bilhões para mais de US$ 670 bilhões ou, da mesma forma, de uma média de US$ 5 milhões para outra de US$ 17 milhões por negócio.

De fato, o crescimento acelerado evidenciado pela tendência descrita por estes números estabeleceu um novo recorde para esta fonte de financiamento em 2021 (os anteriores ocorreram em 2018 e 2020), o que não é surpreendente considerando a importância que este instrumento de financiamento adquiriu entre os investidores de todo o mundo – sempre ávidos por espremer ao máximo a rentabilidade em suas carteiras e atentos às novas tendências, especialmente em termos de investimentos verdes e socialmente responsáveis, bem como o impulso que o financiamento destinado aos setores de software vem recebendo (que, de acordo com a mesma fonte de dados, atingiu cerca de um terço do total captado globalmente em 2021), e o consumo de bens e serviços (plataformas e marketplaces digitais, por exemplo) como resultado da pandemia e dos seus efeitos nos novos costumes sociais, trabalhistas e empresariais – especialmente em termos de transformação digital e da necessidade de as empresas abordarem o mercado com novas estratégias centradas no cliente, que envolvem tanto a análise e uso intensivo de dados quanto o maior investimento em tecnologias e ferramentas digitais. Exemplos claros dessas tendências, que foram reforçadas ao longo de 2021, especialmente durante o terceiro e quarto trimestres do ano e graças ao ímpeto gerado pela realização (pré e pós) da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021 (COP26); são os investimentos crescentes destinados a contribuir para a edução de emissões de poluentes e em áreas relacionadas com veículos elétricos, energias limpas, mobilidade e infraestrutura, entre as quais podemos citar alguns que conseguiram
captar recursos importantes durante a segunda metade do ano, como o fabricante de veículos elétricos Rivian, a empresa de infraestrutura de energia alternativa Generate, a empresa de reciclagem de baterias Redwood Materials, e a empresa de energia Commonwealth Fusion Systems, todas localizadas nos EUA; ou aquelas localizadas em outras latitudes, como a empresa de armazenamento de energia Svolt, da China; aquela centrada na maximização da economia circular, a Glover, da Alemanha; ou a empresa de carne cultivada Aleph Farms, sediada em Israel. No entanto, chegando ao final de 2021, o desafio destacado pelos
investidores em capital de risco continua sendo a falta de padrões para avaliar as atividades de ESG de maneira consistente; portanto, olhando para 2022, os investimentos em tecnologias e ferramentas de medição que ajudem as empresas e os investidores a rastrear, medir e reportar de maneira mais precisa o impacto desses investimentos.

Indo para os resultados mais gerais do ano que terminou, é importante destacar que, dos 10 negócios mais importantes de 2021 classificados por tamanho, a maior parte estava localizada na Ásia e nas Américas, enquanto os setores de software, varejo e serviços foram os protagonistas. Entre os mais interessantes, podemos destacar os casos da Flipkart, empresa de e-commerce da Índia, que arrecadou US$ 3,6 bilhões no terceiro trimestre; J&T Express, um e-commerce da Indonésia que levantou US$ 2,5 bilhões em financiamento no quarto trimestre; e, para destacar um exemplo na América do Sul, o Nubank, uma importante fintech
do Brasil que conseguiu captar recursos durante a maior parte do ano (chegando a mais de US$ 3 bilhões em todo o ano de 2021), destacando-se regional e globalmente.

Seguindo as tendências globais e com base nas evidências fornecidas pelo caso do Nubank (entre outros, que, embora com desempenhos inferiores, foram igualmente notáveis), na América Latina o financiamento por meio do capital de risco também está registrandoum crescimento sem precedentes. Durante o ano de 2021, Brasil e México, que até agora têm sido os mercados que mais atraíram capital de risco para suas empresas na última década, juntos arrecadaram cerca de US$ 12 bilhões, distribuídos em cerca de 570 negócios (ou seja, aproximadamente uma média de US$ 20 milhões por negócio, um valor bem acima
da média global, que em 2021 ficou em US$ 17 milhões por negócio), o que representa um crescimento sobre o total alcançado em 2020 de mais de 250% em dólares.

Com esse nível de crescimento refletido nos números, a pergunta lógica para os investidores e analistas de mercado é: Quais foram os fatores e expoentes da região que possibilitaram esse resultado? Além do caso excepcional do Nubank, houve outras empresas da região que conseguiram captar recursos substanciais, incluindo o Rappi (transporte e entregas), sediado na Colômbia, e a Tendenube (e-commerce) da Argentina, que captaram US$ 500 milhões cada no terceiro trimestre do ano; a WeCancer (saúde), Loft (real estate) e o Mercado Bitcoin (criptomoedas) do Brasil, que conseguiram captar entre US$ 200 e US$ 500 milhões em diferentes épocas do ano. Da mesma forma, e considerando a dimensão crescente dos negócios, a aceleração da taxa de surgimento de “unicórnios” foi outro fator que explica o crescimento do mercado de capital de risco na região durante 2021. A título de exemplo, as empresas Madeira Madeira, Tiendanube, Hotmart, Mercado Bitcoin, Unico, Frete.com, Cloudwalk, Daki, Merama, Olist, Facily, y Cargo X, entre outras, atingiram esse status durante o ano que acaba de terminar, atingindo uma avaliação de mercado superior a US$ 1 bilhão.

Em linhas gerais, pode-se dizer que o mercado de capital de risco está em plena evolução em toda a América Latina, mas principalmente na região sul-americana, com expoentes claros no Brasil, Colômbia e Argentina, e onde o setor de fintechs representou a maior parte das operações realizadas em 2021. O amadurecimento rápido desse mercado nessa parte do mundo também é evidenciado tanto pelo número de empresas que alcançam o status de unicórnio quanto pela velocidade com que o estão fazendo isso. Finalmente, as melhores condições oferecidas em alguns mercados da região têm sido fatores determinantes, especialmente no Brasil, onde durante 2021 convergiram as baixas taxas de juros, oportunidades de investimento mais baratas e um leque cada vez mais diversificado de empresas em busca de financiamento, além do apoio estatal para a inovação e empreendedorismo. Em outros países, como a Argentina, apesar de as condições econômicas e conjunturais não serem ótimas, o grande número de empreendedores e a resiliência que os caracteriza permitiram, ainda que com taxas menores, a proliferação de start-ups e outras iniciativas com alto potencial de crescimento.

Olhando para 2022, espera-se que o investimento em capital de risco continue forte na maioria das regiões do mundo, mas especialmente em mercados menos desenvolvidos, como a América Latina. É provável que esta fonte de financiamento continue sendo atraída sobretudo por fintechs, seguidas pelos serviços B2B, saúde, segurança cibernética e soluções de inteligência artificial para todos os setores. Da mesma forma, espera-se que os investimentos de capital de risco alinhados com ESG continuem seu ciclo de crescimento, conforme o interesse por esses tipos de investimentos continua aumentando e ferramentas de mensuração para determinar seu impacto com mais precisão vêm surgindo. O ano de 2022 está apenas começando, mas as tendências indicam que será mais um marco no constante desenvolvimento dessa fonte de financiamento em nossa região.

()