Você não tem permissão para ver essa notícia

Mudanças radicais na infraestrutura da América do Sul

Enquanto novas tendências surgem, outras são reforçadas ou desaparecem.

silhueta de operários em construção

15 de fevereiro de 2022


Por: Fernando Faría, Sócio-Líder de Infraestrutura da KPMG na América Latina

Os últimos dois anos representaram um ponto de inflexão para o mundo. Enquanto 2020 foi marcado pelo início de uma das pandemias com o maior impacto da nossa história recente, e cujo alcance levou a uma crise sanitária e econômica global, resultando em uma queda significativa do PIB global (superior a 3%) e aumentos consideráveis nas taxas de desemprego (causando aumentos nos níveis de pobreza); o ano de 2021 representou o ponto de partida de uma trajetória de recuperação, que deverá continuar em 2022 e nos anos subsequentes. Nesse cenário de desequilíbrios produzidos pela crise, muitos, senão todos, os setores produtivos foram afetados. Apenas para citar alguns exemplos, enquanto para os setores primários (produtos agrícolas, mineração, extração de petróleo e gás, etc.) a pandemia de COVID-19 se traduziu em uma queda nos preços internacionais em resposta ao fechamento das economias e à contração na demanda externa; outros setores, como indústria e infraestrutura, sentiram o impacto tanto das medidas de contenção adotadas pelos países para mitigar a curva de contágio quanto da postergação ou atraso de projetos em andamento e do aumento do nível de incerteza.

Apesar do anteriormente exposto, a massificação do processo de vacinação global e a saída da crise de alguns países importantes (especialmente a China) fizeram com que alguns sinais de recuperação começassem a ser vistos durante a última parte de 2020 e 2021. No entanto, para a infraestrutura, que é fundamental para que essa recuperação seja consistente e sustentável, as mudanças nos padrões de consumo e as novas modalidades trabalhistas e sociais que nasceram com a pandemia, bem como as realidades enfrentadas pelas diferentes regiões do mundo (especialmente os déficits de infraestrutura que a crise tornou mais evidentes, por exemplo, na América Latina), estão gerando mudanças radicais tanto na carteira de projetos que os países buscam implementar quanto no destino dos investimentos, que, por exemplo, atualmente são voltados para projetos socialmente responsáveis e/ou que respeitem os padrões ambientais, sociais e de governança corporativa (ESG).

Esse desvio teve então como resultado uma mudança inédita no conjunto de tendências que o setor havia incorporado para modelar seu desenvolvimento para os próximos 10 anos, deixando-o à espera de maiores “certezas”. No entanto, enquanto algumas dessas tendências deixaram de ser relevantes e perderam peso, outras se aceleraram ou simplesmente se materializaram em decorrência dos efeitos da crise. Para visualizar esse cenário, alguns exemplos podem ser citados que permitem conceber a profundidade e o significado que essa mudança de paradigma está gerando para o setor de infraestrutura. Antes da pandemia, a complexidade associada ao financiamento de megaprojetos, tanto em termos de custos quanto de atrasos, já favorecia iniciativas de menor escala, e essa atualmente é quase uma norma. De maneira similar, as pressões exercidas pelas demandas sociais em busca de maior sustentabilidade e resiliência tornaram-se um marco para qualquer iniciativa de infraestrutura, com o objetivo de atrair investimentos, de um lado, e de outro, evitar ou mitigar o impacto dos riscos disruptivo[1]. sobre o ciclo de vida do ativo (sobretudo, após a COP26, conferência global em que a maioria dos países se comprometeu a atingir a meta de zero emissões líquidas de poluentes no curto e médio prazo). Ou, ainda, os esquemas de financiamento público-privado, que pareciam condenados e agora estão se tornando veículos viáveis para o financiamento de projetos em algumas regiões, especialmente nas menos desenvolvidas (por exemplo, na América Latina).

Da mesma forma, houve um aprofundamento ou materialização de tendências que não estavam, pelo menos não totalmente, no foco dos investidores, ou que funcionaram como diretrizes na criação de listas de projetos dos países. Nesse sentido, a incerteza tem sido uma das principais. Embora seja um elemento sempre presente na gestão e modelagem financeira dos projetos de infraestrutura, a pandemia trouxe consigo “níveis inusitados” que afetaram tanto os padrões de comportamento social quanto os padrões de consumo e trabalho e, consequentemente, a missão e visão da infraestrutura, que a partir de agora buscará contar mais com novas tecnologias, na análise de dados e no diálogo com os stakeholders para convergir e antecipar as necessidades imediatas e futuras dos usuários com maior “precisão”[2]. Da mesma forma, a proposta de valor das cidades (que terão que redefinir seu crescimento e valor diante dos novos hábitos das pessoas, mudanças nos seus estilos de vida e maior propensão a se afastarem dos grandes centros em decorrência da pandemia e das possibilidades oferecidas pela digitalização de quase todas as atividades), a construção de cadeias de suprimentos resilientes, focadas tanto em serem mais domésticas quanto diversificadas (devido aos desequilíbrios causados pela pandemia e as guerras comerciais em curso, que levaram as empresas a repensar o controle que devem ter sobre elas para evitar desabastecimentos), a necessidade de fornecer um ambiente digital seguro (que afeta diretamente os projetos de infraestrutura destinados a melhorar tanto as redes elétricas quanto de conexão com a Internet, bem como iniciativas destinadas a melhorar a segurança cibernética) e, entre outras, as fontes de financiamento alternativas; também fazem parte dessa 

reconfiguração do espaço em que o mercado de infraestrutura se desenvolve e dos fundamentos que determinarão seu crescimento futuro.      

Embora essas mudanças radicais sejam globais, são as realidades particulares que, associadas aos efeitos da pandemia, estão determinando a ponderação ou o peso que cada tendência receberá em cada região. Na América do Sul, considerando as crises sociais e econômicas preexistentes à pandemia e os efeitos que ela teve nos países que a compõem (sobretudo, o aumento dos níveis de endividamento e a deterioração dos orçamentos públicos), a nova realidade certamente implica uma maior propensão à realização de projetos de baixa complexidade. E isso está relacionado aos altos níveis de incerteza, que não só impedem a realização de projeções financeiras críveis, como, ao mesmo tempo, aumentam o custo de oportunidade para os investidores (de maneira proporcional à complexidade ou ao tempo de desenvolvimento da iniciativa, ou quanto mais instável social, política e/ou economicamente for o país ou região onde ela é realizada). Paralelamente, as principais cidades sul-americanas terão que repensar seu papel diante da mudança radical que a pandemia gerou nos padrões de comportamento social, especialmente em termos de mudanças climáticas e sustentabilidade. Considerando que a região da América Latina é uma das mais urbanizadas do mundo (CAF, 2021)[3], com cerca de 80% da sua população vivendo em cidades, a sustentabilidade está entre os primeiros desafios a serem enfrentados. Por isso, para combater as mudanças climáticas, cujos efeitos adversos serão sempre mais perceptíveis nas regiões em desenvolvimento, as cidades devem aprofundar seus planos de uso e conservação da biodiversidade, bem como o planejamento urbano e a geração de energia elétrica por meio de fontes alternativas; favorecer a realização de projetos de infraestrutura resilientes e sustentáveis e aqueles que suponham a eliminação ou redução de emissões de gases poluentes. E se é verdade que a maioria dos países da região sul-americana está em processo de transformação de suas matrizes energéticas para fontes mais limpas, o caminho ainda é longo e exigirá melhores condições jurídicas e econômicas para continuar avançando e atraindo o capital privado.

Da mesma forma, espera-se que os modelos de financiamento público-privado passem por uma revitalização, especialmente considerando a falta de financiamento que a região sofre e os custos que os governos terão que enfrentar como resultado da pandemia. Conforme destacado pela KPMG na edição 2021 do seu relatório anual “Tendências emergentes em infraestrutura” [4], enquanto em alguns casos a parceria público-privada será necessária em função do alto peso dos custos da pandemia nas contas públicas (pressionando os governos a encontrar modelos alternativos de financiamento), em outros ela será impulsionada pela necessidade de inovar e melhorar a oferta de serviços para suas populações. Finalmente, não devemos esquecer a necessidade de as empresas abordarem as cadeias de suprimentos e diversificarem as fontes de insumos (particularmente em função da alta dependência que os países da região têm de insumos críticos de outras regiões, especialmente produtos farmacêuticos, semicondutores e insumos tecnológicos), ou a urgência dos governos em priorizar sua capacidade de entrega em um mundo digital (especialmente em termos da implementação de redes 5G, mas também em relação a redes elétricas e capacidade de Internet). Essas serão algumas das “outras tendências” que marcam o pulso da infraestrutura regional além de 2022.     

Embora seja verdade que a maioria dessas tendências será fortemente sentida em todo o mundo em 2022, na América do Sul os obstáculos associados ao financiamento e à gestão da incerteza continuarão sendo decisivos para atingir um bom desenvolvimento da infraestrutura regional. Da mesma forma, a região precisa de uma agenda conjunta que busque priorizar tanto a construção da confiança entre investidores locais e estrangeiros, quanto enquadrar seus projetos em três conceitos fundamentais: sustentabilidade, resiliência e novos modelos de financiamento. Só assim será possível atrair o capital privado necessário para facilitar a implementação de esquemas de financiamento público-privado que, em última análise, são a alternativa mais viável à insolvência dos governos locais. Isso é fundamental para que o setor de infraestrutura seja um catalisador da recuperação econômica regional, em um mundo que não terá mais um novo normal “pós” COVID-19, mas precisa aprender a conviver com ela.

 

[1] - Especialmente as climáticas, cibernéticas, financeiras, tecnológicas, políticas e sociais.

[2] - “Emerging Trends in Infrastructure. 2022 Edition”, KPMG, 2022.

[3] - “Ciudades latinoamericanas responden al cambio climático”, Banco de Desarrollo para América Latina (CAF), 10 de janeiro de 2021.

[4] - “Emerging Trends in Infrastructure. 2021 Edition”, KPMG, 2021.

()